Zuko: um pedal Marshall Plexi DIY open hardware

Eu comecei a aprender guitarra em novembro de 2020, e decidi isso por ser muito fã de Ramones. Desde então eu sempre quis ter o som do Johnny Ramone — aquele Marshall Plexi cranked (com o volume no máximo, saturando naturalmente), tudo no 10, downstrokes agressivos, sem pedais, sem firulas.

O problema é que um Marshall Super Lead 100 custa mais que meu carro. E mesmo se eu tivesse um, eu moro em apartamento. Meus vizinhos já não gostam de mim.

Então eu pensei: por que não construir o meu próprio “Marshall in a box”? Um pedal preamp (pré-amplificador) que soa como um Plexi, open hardware, feito à mão, numa chapa de alumínio furada com furadeira. E que cubra TODA a discografia dos Ramones — do primeiro álbum de 1976 até Adios Amigos de 1995.

E foi daqui que eu parti.

Por que “Zuko”?

Eu nomeio meus projetos com personagens de Avatar: The Last Airbender. Meu teclado com switches ALPS se chama Appa, meu teclado Cherry MX se chama Momo. Então o pedal de guitarra precisava de um nome Avatar também.

Zuko é o príncipe do fogo — literalmente. O elemento fogo é a saturação quente do Marshall. A dualidade do Zuko (bem vs. mau, príncipe vs. exilado) são os 2 canais do pedal: o 1976 (cru, controlado) e o 1984 (agressivo, raivoso). E o arco de redenção do Zuko é a transformação do som cru da guitarra em um tom Marshall completo.

Além disso, zuko-pcb, zuko-firmware, zuko-case seguem o mesmo padrão dos meus repositórios de teclado.

Appa  → teclado ALPS     → Calebe94/appa-pcb
Momo  → teclado Cherry MX → Calebe94/momo-pcb
Zuko  → pedal Marshall   → Calebe94/zuko-pcb    ← NOVO

A ideia: 2 canais para 20 anos de Ramones

Johnny Ramone usou basicamente o mesmo rig a carreira inteira: uma guitarra Mosrite + um amp Marshall Plexi ou JCM800 + um gabinete 1960A com falantes Celestion Greenback. Ele não mudava timbre entre álbuns — o som evoluiu pela produção de estúdio, não pelo rig dele.

Pra quem não é guitarrista: o Plexi é o apelido do Marshall Super Lead, o amp valvulado dos anos 60 que definiu o som do rock britânico. O JCM800 é a versão dos anos 80, mesma topologia mas com mais ganho. O 1960A é o gabinete 4x12 (4 falantes de 12 polegadas) padrão da Marshall, e o Greenback (Celestion G12M-25) é o falante que dava aquele midrange quente e cremoso.

Mas se você escuta os álbuns com atenção, dá pra notar que o som tem duas vozes principais:

  • Os anos 70 (Ramones, Leave Home, Rocket to Russia): cru, menos saturação, mais twang. O Plexi não estava totalmente cranked.
  • Os anos 80 em diante (Road to Ruin, Too Tough to Die, Animal Boy): mais pesado, mais agressivo, scooped mids (com as frequências médias atenuadas, o que dá aquele som “oco” e agressivo). O amp estava saturando mais.

Então o pedal precisa de 2 canais:

  • Canal “1976”: menos ganho, som cru, twang
  • Canal “1984”: mais ganho, agressivo, scooped

Com um footswitch (botão de pedal que você aperta com o pé) você alterna entre os dois. Do primeiro ao último disco, um pedal só.

RAMONES (1976)     Leave Home (1977)    Rocket to Russia (1977)
  ↓ CANAL 1976 ↓     ↓ CANAL 1976 ↓      ↓ CANAL 1976 ↓
  [cru, twang]       [cru, polido]       [brilhante, pop-punk]

Road to Ruin (1978)  End of Century (80) Too Tough to Die (84)
  ↓ CANAL 1984 ↓     ↓ CANAL 1984 ↓      ↓ CANAL 1984 ↓
  [pesado]           [wall of sound]     [hardcore, agressivo]

O circuito: Runoffgroove Thor (open hardware)

Depois de muita pesquisa encontrei o site runoffgroove.com, que é uma mina de ouro pra quem gosta de pedais DIY. Eles pegam circuitos de amps valvulados famosos e “convertem” pra versão em transistor — mais especificamente JFETs ( Junction Field-Effect Transistor, um tipo de transistor que tem uma curva de resposta parecida com a de uma válvula). Eles chamam isso de “tubes-to-FETs”.

O Thor é a adaptação do Marshall 100W Super Lead (Plexi) pra pedal. Usa 3 JFETs J201 que emulam os 3 estágios da válvula 12AX7 do Plexi, e tem licença Creative Commons BY-NC-SA 3.0 — ou seja, é open hardware de verdade. Esquema, PCB layout, e até fotos da perfboard montada, tudo gratuito.

Aqui está a foto do pedal Thor montado, do site do runoffgroove:

E o esquema completo do circuito:

Mas o Thor original tem um problema pra nosso caso: ele não tem o tone stack FMV (o circuito de EQ de 3 knobs — Bass, Mid, Treble — que o Marshall usa desde os anos 60) que o Plexi real tem. Ele usa um filtro ativo custom. E ele não tem 2 canais.

Então eu vou modificar o Thor adicionando:

  1. Tone stack FMV passivo (Bass/Mid/Treble) entre o 2º e 3º estágio — é o circuito clássico do Marshall, documentado em todo lugar. “FMV” é só o nome do formato do circuito de EQ passivo usado pela Fender, Marshall e Vox desde os anos 60.
  2. Channel switch no 2º estágio — 2 valores de ganho, switchable com footswitch (1976 = menos, 1984 = mais)
  3. Presence control no feedback — como o amp real. O Presence controla os agudos do power amp através de feedback negativo.

Isso me dá os controles Gain, Bass, Mid, Treble, Presence, Volume — exatamente como o Plexi do Johnny.

Onde encontrar os esquemas

Todos os arquivos do Thor estão disponíveis gratuitamente no site do runoffgroove:

O PCB foi contribuído por Pablo De Luca (v1.31, 2007) e está pronto pra mandar fabricar no JLCPCB ou PCBWay.

Aqui está o layout da perfboard (para quem prefere montar sem PCB):

E uma foto da perfboard montada (topo e bottom):

A Tank G como cab simulator

Um preamp sozinho soa fino e buzzy. Ele precisa de um gabinete (cab) pra soar como um amp de verdade — são os falantes e a caixa de madeira que dão o “corpo” e a resposta de frequência que a gente associa com um amp de guitarra.

E é aqui que entra a minha M-VAVE Tank G.

A Tank G é um pedal multi-fx compacto que tem:

  • IR Loader embutido — carrega Impulse Responses de gabinetes (arquivos .wav que capturam a resposta de um gabinete + falante + microfone, como uma “impressão digital” do som daquele setup)
  • USB Audio Interface — grava e toca áudio via USB
  • Amp models digitais
  • Saída para fones e amp

Em vez de construir um IR loader no Raspberry Pi (que seria a Fase 3 do projeto), eu uso a Tank G que já tenho. Ela carrega um IR do Marshall 1960A com Celestion G12M-25 Greenback — exatamente o gabinete que o Johnny Ramone usava.

O signal chain completo, de forma visual:

Mosrite Kamming          Zuko (este pedal)         Tank G (IR loader)
┌─────────────┐         ┌──────────────┐        ┌──────────────┐
│             │  cabo   │              │  cabo  │              │
│  bridge     │────────→│  3× JFET     │───────→│  IR 1960A    │──→ Fones
│  pickup     │  TS 1/4"│  J201        │  patch │  Greenback   │──→ Amp
│             │         │              │        │              │──→ USB
└─────────────┘         │  2 canais    │        └──────────────┘
                        │  FMV + Pres  │
                        └──────────────┘

O signal chain fica assim:

Mosrite → Zuko (preamp) → Tank G (IR 1960A) → Fones/Amp

O preamp JFET faz a saturação analógica orgânica. A Tank G aplica a resposta do gabinete 4x12 via convolução digital (multiplicação matemática dos espectros do sinal e do IR). O resultado soa como um Marshall Plexi completo, não como um pedal buzzy.

O IR que eu pretendo comprar é o Marsh 196A da 3 Sigma Audio, que custa US$10 (uns R$50) e tem várias posições de microfone. É o gabinete exato do Johnny Ramone.

O pedal

Dimensões

ItemDimensão
Chapa de alumínio150mm × 100mm × 3mm
PCB (Thor mod)~60mm × 80mm
Enclosure alternativo1590BB (120×95×35mm)

3mm de espessura é importante — precisa ser grosso o suficiente pra rosquear footswitches e jacks sem entortar.

Painel topo

┌──────────────────────────────────────────────┐
│         Zuko                                 │
│         150mm x 100mm x 3mm alumínio         │
│                                              │
│  ┌────┐ ┌────┐ ┌────┐                        │
│  │Gain│ │Bass│ │ Mid│                        │
│  └────┘ └────┘ └────┘                        │
│  ┌────┐ ┌────┐ ┌──────┐                      │
│  │Tre │ │Pres│ │Volume│                      │
│  └────┘ └────┘ └──────┘                      │
│                                              │
│  ┌──────┐  ┌─────┐  ┌──────┐                 │
│  │ FS1  │  │ FS2 │  │ FS3  │                 │
│  │Bypass│  │1976/│  │Boost │                 │
│  │      │  │1984 │  │      │                 │
│  └──────┘  └─────┘  └──────┘                 │
│                                              │
│ Laterais: [IN TS 1/4"] 9V  ... [OUT TS 1/4"] │
└──────────────────────────────────────────────┘

Footswitches (3)

FSFunçãoLEDComportamento
FS1True Bypass🟢 verdeOn: guitarra → AIAB → Tank G. Off: guitarra → direto Tank G.
FS2Channel 1976 ↔ 1984🟡 amareloAlterna o ganho do 2º estágio. Duas vozes dos Ramones.
FS3Boost/Drive🔴 vermelhoGanho extra para solos (Pet Sematary, Poison Heart)

True Bypass significa que quando o pedal está desligado, o sinal da guitarra passa direto do input pro output sem passar por nenhum circuito — como se o pedal não existisse. Um 3PDT (Triple Pole Double Throw) é o tipo de footswitch que permite isso: ele comuta 3 circuitos simultaneamente com um clique.

Só 3 footswitches nesta fase. Os outros (play/stop, stem selector, tuner bypass) vêm na Fase 3 quando eu adicionar o Raspberry Pi.

Entradas e saídas

ConectorTipoFunção
InputTS 1/4” jackGuitarra (Mosrite)
OutputTS 1/4” jack→ Tank G guitar in
PowerDC 9V barrelFonte 9V padrão pedal
LED verde5mmFS1 status (bypass)
LED amarelo5mmFS2 status (canal ativo)
LED vermelho5mmFS3 status (boost)

TS 1/4” (Tip-Sleeve de 1/4 de polegada, ou 6.35mm) é o conector padrão de guitarra — aquele jack P2 grande que todo cabo de guitarra usa.

Lista de materiais

ItemQtdPreço (R$)
JFET J2013~15
TL072 op-amp1~3
Trimpot 10kΩ3~9
Pot 100kΩA5~25
Pot 25kΩA1~5
3PDT footswitch3~60
LED 5mm (verde, amarelo, vermelho)3~6
Jack TS 1/4”2~15
DC jack 9V1~5
Capacitores (22nF, 1µF, 100nF, 0.68µF)~20~15
PCB ou perfboard1~15
Chapa alumínio 150×100×3mm1~20
Total~193

R$193. Menos que um kit de teclado mecânico. Menos que um jogo de strings e um par de palhetas Dunlop Tortex.

Diagrama de blocos do circuito

graph LR
    IN[Input TS 1/4] --> S1[Estágio 1<br> JFET J201<br>ganho fixo]
    S1 --> S2{Estágio 2<br>JFET J201<br>ganho switchable}
    S2 -->|1976: menos ganho| TS
    S2 -->|1984: mais ganho| TS
    TS[Tone Stack FMV<br>Bass / Mid / Treble<br>+ Presence] --> S3[Estágio 3<br>mu-amp<br>push-pull sim]
    S3 --> VOL[Volume] --> OUT[Output TS 1/4<br>→ Tank G]

    FS2[FS2<br>Channel Switch] -.->|comuta ganho| S2
graph LR
    FS1[FS1<br>True Bypass] -.->|on/off do pedal| PEDAL[Zuko]
    FS2[FS2<br>1976 ↔ 1984] -.->|alterna canal| PEDAL
    FS3[FS3<br>Boost] -.->|ganho extra p/ solos| PEDAL

O mu-amp no estágio 3 é uma configuração de 2 JFETs que emula o push-pull do power amp valvulado — aquele estágio final do amp que usa duas válvulas trabalhando em oposição (uma empurra enquanto a outra puxa) pra gerar potência e saturação. O Thor usa isso pra simular a saturação do power amp do Plexi, não só do preamp.

Como testar

Antes de soldar tudo numa PCB, eu vou montar em protoboard pra testar o som:

  1. Montar o circuito Thor em protoboard seguindo o esquema
  2. Adicionar o tone stack FMV entre 2º e 3º estágio
  3. Ligar guitarra → AIAB → Tank G (guitar in)
  4. Tank G: selecionar IR 1960A Greenback
  5. Tank G: fones ou amp out
  6. Tocar — deve soar como Marshall Plexi + 4x12 cab
  7. FS1: testar bypass (guitarra seca vs com efeito)
  8. FS2: testar 1976 (cru) vs 1984 (agressivo)
  9. FS3: testar boost (crunch → lead)

Se o som estiver bom, aí sim: soldar PCB, montar na chapa de alumínio, e pronto. Zuko.

O que torna esse projeto nosso

  1. DIY e open hardware — Thor é CC BY-NC-SA 3.0, eu posso modificar e compartilhar
  2. 2 canais nomeados “1976” e “1984” — minha ideia, cobre toda a discografia
  3. Tone stack FMV adicionado — modificação minha do circuito original, não existe no runoffgroove
  4. Integração com Tank G — IR loader como cab simulator, não tem no projeto original
  5. Nome: Zuko — punk, DIY, engenharia, humor
  6. Chapa de alumínio furada à mão — não é PCB comercial, é meu
  7. Mosrite Kamming → Zuko → Tank G = Johnny Rig completo

Próximas fases

O Zuko é só a Fase 1 de um projeto maior — o Vinyl Stem Remover.

  • Fase 1 (agora): Zuko + Tank G — pedal standalone
  • Fase 2: Comprar IR 3 Sigma Marsh 196A (US$10), carregar na Tank G
  • Fase 3: Raspberry Pi 5 + Demucs (stem separation — remove guitarra do vinil)
  • Fase 4: Toca-discos + count-in “1-2-3-4!” do Dee Dee
  • Fase 5: Sistema completo all-in-one

Mas por enquanto, é só o pedal. Um pedal de R$193 que soa como um Marshall de R$30.000.

Gabba Gabba Hey!

Glossário

Este post usa vários termos de guitarra, eletrônica e áudio digital. Se algum não for familiar, confira o glossário do blog — ele é atualizado a cada post.

Os principais termos usados aqui:

TermoSignificado
PlexiApelido do Marshall Super Lead, amp valvulado dos anos 60
JFETTransistor com resposta parecida com válvula, usado no lugar da 12AX7
Tone stack FMVCircuito de EQ de 3 knobs (Bass/Mid/Treble) do Marshall
IRImpulse Response — “impressão digital” do som de um gabinete
True BypassSinal passa direto sem passar pelo circuito quando o pedal está off
mu-ampConfiguração de 2 JFETs que emula o push-pull do power amp
Scooped midsFrequências médias atenuadas — som “oco” e agressivo

Glossário completo com todos os termos: glossario.

Referências